1. Hi mom, I'm in home again.
Fechei a porta do táxi logo atrás de mim, meus últimos meses foram tão obscuros que meus olhos ainda estavam se acostumando com a luz, o motorista pegou minhas malas e me entregou. Dei uma gorjeta pra ele. Assim que acomodei as alças das bolsas nas minhas pequenas mãos, subi os três degraus da porta em frente a minha casa, – me lembro que cai muitas vezes ali – bati de leve na porta, não podia perder a força ou as malas iriam cair.
– Holly?
– Jen!
Com certeza eu não conhecia mais a minha irmã, quando saí de casa ela era tão pequena e frágil, agora já era uma moça que pelo que me lembro irá fazer aniversário daqui a uma semana e meia.
– Quanto tempo, quando tempo! – ela me deu um abraço tão quentinho e familiar – A mamãe ia adorar ver você!
– Ela não está em casa, Jen?
– Não, – ela abaixou os olhos – ela viajou, vai ficar fora por uns dias.
– E você tá aqui, sozinha?
– A senhora Carmela, a vizinha, vem aqui de vez em quando me ver, mais eu tenho ficado sozinha a maior parte do tempo.
– Mais como ela... ela não pode te deixar sozinha aqui, cozinhando e limpando, arrumando tudo... Você só tem 9 anos!
– Quase 10! – ela aumentou o tom da voz – E além do mais... eu tô me virando..
– Tudo bem Jen, eu vou subir com as minhas malas e depois nós conversamos.
Onde aquela idiota da minha mãe devia estar com a cabeça? E se a Jen colocasse... fogo na casa? Ou sabe se lá o que? Mais eu não iria lidar com isso agora. Tinha acabo de voltar, voltar a vida... a luz... a respirar o mesmo ar que pessoas normais, não ia me preocupar com muita coisa naquele momento.
Meu quarto estava do mesmo jeito que o deixei, na verdade estava tudo do jeito que eu havia deixado, ate o sangue perto da cama e as lâminas escondidas debaixo do colchão... Peguei uma mala de cada vez, e fui esvaziando de uma em uma, colocando todas as minhas roupas – que eu achei que iria usar – no lugar, fiquei feliz de saber que agora, eu ia poder usar as minhas roupas ao envés do pijama feio, suado e surrado que usei durante meses.
– Holly você não vem comer? – berrou minha irmã.
– Comer? Olha, você ta sabendo mesmo se virar.
Desci com cuidado as escadas e fui até a cozinha, bem... não era o que eu imaginava, era comida congelada, ele deve estar comendo isso desde que a mamãe viajou.
– Jen... a quanto tempo você não vê a mãe?
– A uns 3 dias.
– Ela disse pra onde ia?
– Não... ela só disse que era urgente e que ela voltaria em pouco tempo.
– Ela te avisou que eu iria chegar?
– Não... na verdade... – ela olhou pro outro lado – Deixa, deixa.
– O que foi?
– Nada.
– Jen...
– É que... eu e a mamãe... a gente não... sabe... falou sobre... você, Holly.
– Hm... sabe, eu imaginava isso.
– É.
O resto do almoço foi silencioso, frio. A única coisa que se ouvia era o barulho dos garfos e dos copos, quando terminamos, eu fiquei impressionada com o jeito que a Jen evoluiu, ela pegou as louças e as lavou, rápido e facilmente, como se fosse normal pra uma garotinha de 9 anos.
– Holly...
– Oi?
– Estou feliz que você esteja bem.
– Vem aqui. – sorri –
A abracei e depois ficamos horas conversando sobre a escola dela, o brilho dos olhinhos dela era tão desconhecido e conhecido ao mesmo tempo, era tão entusiasmante ouvir todas aquelas histórias, era como se eu nunca tivesse saído de casa, era como se eu sempre estivesse ali.
Anoiteceu tão rápido. Jen estava vendo TV e com os fones de ouvido tacados na orelha.
– Pra que isso?
– Ân? – ela tirou os fones –
– Pra que os fones?
– Não gosto de ver TV a noite, só tem tele-jornais.
– Desligue a TV.
– Gosto do barulhinho que ela faz... me faz sentir menos sozinha.
– Hm. – ri – Agora eu estou aqui, pequena, não precisa mais disso. Quer ver um filme?
– Sim.
Ela adormeceu no meu ombro, eu não me importei, precisava de um calorzinho humano depois de tanto tempo sozinha, só sei que, eu devo ter dormido por lá também, ou então, eu só sonhei.


2. Once upon a time in the Psychiatric Hospital ... [1]
"Algum dia de algum mês que eu não faço ideia de qual seja.
A enfermeira acabou de sair daqui depois que me deu o remédio da madrugada. Ela também me deixou esse bloco de papel estúpido e uma caneta que quase não tem mais tinta... ela disse que enquanto eu não fosse transferida – pra parte ruim desse hospital de doidos – pra outra parte do hospital, esse seria o diário que me obrigariam a fazer.
É o meu segundo dia aqui, e já me sinto uma droga, me sinto sozinha, estúpida, como um lixo, de verdade? Não aconselho ninguém a matar o padastro e depois tentar se matar. Eu deveria ter morrido... assim eu não passaria por isso.
Mas foda-se. Se eu me arrependo? Não.
Eu tô pouco ligando pro que os outros estão falando de mim fora desse lugar. O que me deixou pior na parte de ter que passar meses trancada aqui, foi de deixar a minha irmã com aquela insensível da minha mãe. Ela vai tratar a garotinha como um papel esperando pra ir pro lixo.
Espero que ela seja forte."


3. We will back, more stronger than ever.
"Holly, saí pra comprar comida congelada, volto daqui a pouco. Jen"
Precisava falar com a mamãe, saber e ouvir dela onde ela estava, mas o telefone que pensei que era o dela, talvez não fosse mais... tentei ligar mais de 10 vezes e nada...
– Bom dia Holly!
– Oi... Jen – me assustei dando um pulo e olhando pra trás
– Com quem você... queria falar?
– Com ninguém. – suspirei – Então, como foi no supermercado?
– Normal. – ela riu e jogou as sacolas no balcão, fui até lá ajuda-la.
– Ei, hm... quero perguntar uma coisa.
– É só dizer.
– Você ainda continua no mesmo colégio?
– É... e você também, se é isso que quer saber.
– Ah...
– Desculpa Holly, a culpa foi minha, quer dizer... quando a mamãe disse que queria te trocar de colégio eu meio que precisava...
– De uma parceira?
– De você, Holly.
Soltei as sacolas e a abracei.
– Tudo bem Jen. – sorri – Eu vou cuidar de você.
– Mais Holly... eu não cuidei de você.
– Não importa, ok? Eu não preciso que você faça nada que eu precise retribuir.
Fiz o café da manhã mais natural que consegui, arrumei a mesa como eu me lembrava que era... Por mais que eu estivesse com aquelas borboletas no estômago de ter que voltar pra mesma maldita escola.
– Obrigada Jen, é ótimo comer comida caseira de novo. Você não quer?
– Não, não agora... – sorri ao vê-la com o rosto brilhando e até mais coradinho – Jen eu... sinto muito por deixa-la sozinha aqui por tanto tempo.
– Não sinta Holly, não foi nada, ninguém sabia como você estava se sentindo, só queríamos que você melhorasse, entende?
– Claro... ei se importa se eu... der uma saída? Prometo que volto bem rápido.
– Vai lá, a chave tá na porta.

4. Once upon a time in the Psychiatric Hospital ... [2]
"Faz 15 anos, 210 dias e 27 horas que estou viva sem ter certeza do que é a vida
Têm 3 dias que me transferiram pra cá, pra ala 5-Sul do hospital, me disseram que eu não teria colega de quarto porque eu posso ser perigosa socialmente. Diferente do pensamento das pessoas, eu não estou num quarto branco, ele é cinza, cinza escuro, as paredes são macias sim, mais mesmo assim não impedem a dor se você bater nelas.
Não têm janelas, mais eu consigo sentir o vento falso do ar-condicionado que nunca está num temperatura comum, – têm várias coisas fora do comum por aqui – eu ainda não faço atividades em grupo.
Nem desenho, nem música, na verdade eu nem almoço na sala-de-almoçar.
Eles trazem aquela estúpida bandeja pra esse estúpido quarto nesse estúpido hospital de doidos de merda!
É sempre muito difícil tentar me acostumar com tudo isso, eles tiraram de mim tudo que é cortante, sufocante ou o diabo a quatro.
Ninguém veio me visitar ainda, a doutora Miranda disse que a minha família também precisa se adaptar com tudo isso.
Se adaptar com o que?
Com o fato de que tudo que eu tenho feito desde a minha primeira tentativa de suicídio foi culpa deles? Ou de eles nunca terem ligado pro que eu fazia, sentia ou comia?
Tarde de mais, senhor e senhora Perfeitos-demais, a sua filha foi internada por problemas psicopatas.


5. I just wanna change, you know?
Ainda era complicado sair de casa, eu meio que me esqueci como andar pela cidade, mais logo eu fui relembrando das coisas e dos pontos de referencia.
Até que cheguei ao meu inferno. Colégio San Martins.
Exatamente onde eu queria ir, coloquei tanto na cabeça que precisava sair de lá, que me esqueci completamente do que faria pra que ninguém lá, além da moça da secretaria me reconhecesse.
Puxei o capuz do casaco e as mangas, comprei o batom mais escuro que consegui encontrar na farmácia, me fiz de boba e desentendida, – fácil – entrei.
– Olá.
– Olá, como podemos ajudá-la, senhorita?
– Eu queria... pegar o meu histórico e... mudar, – tossi – mudar de escola.
– Pois não. Preencha esta ficha com os dados pedidos e depois farei o meu trabalho.
– Obrigada.
Nome completo, CPF, Rua, Bairro, Telefone...
E mais meia folha de perguntas desnecessárias e ridículas.
– Aqui está.
– Obrigada. – ela recolheu a folha e sumiu em meio de prateleiras e prateleiras de fichas de alunos.
Minutos depois, a moça velha e gordinha, voltou ao balcão de mármore.
– Holly?
Abaixei o capuz e tentei sorrir.
– Holly, querida, como fiquei preocupada!
Como eu não vi que era a senhora Malone? Foi ela que ajudou a mim e a minha irmã quando a nossa mãe precisou viajar repentinamente e nos deixou sem dinheiro ou informações.
– Oi senhora Malone...
– Como foi por lá? Foi difícil? Conseguiu se enturmar? Fez amigos? Onde está a sua mãe? E a Jen? Por que veio sozinha? Ah minha nossa essa cor de batom ficou incrível em você!
Ela tinha essa mania, de perguntar e comentar tudo de uma só vez fazendo a cabeça de qualquer um ficar completamente atordoada, como se você tivesse sido dopado.
– Está tudo bem comigo senhora Malone, eu só preciso do meu histório escolar...
– Mais pra quê? Passou tanto tempo nesse colégio!
– Eu sei, eu sei..., eu só quero... mudar, sabe?
– Claro, queridinha, claro!
Ela colocou a mão debaixo de uma pasta com o meu nome e puxou meu histórico.
– Não posso...
– Ãn?
– Só com a autorização dos pais, ou com eles presentes. E também, seu atestado medico vence na segunda, e você deve voltar a estudar na terça.
– Me permite senhora Malone?
– O que?
Foda-se.
Desci as escadas da escola e peguei o caminho mais rápido até em casa, prometi a Jen que não demoraria.


6. Nobody gonna save me from myself.
– É a sua vez, Holly.
Estávamos jogando um velho jogo que toda a família jogava junto, o jogo das palavras. Confesso que não era nem um pouco reconfortante, me deixou pior do que eu já estava.
"Paralelepípedo" me dá... 52 pontos. Obrigada pelo P.
– Droga, – ela riu e puxou uma mecha de cabelo pra trás da orelha – onde você foi?
– Só fui ver o bairro, relembrar da cidade...
– Hm. Ei eu me esqueci completamente! A mamãe ligou!
– Verdade? E o que ela disse?
– Perguntou como eu estava e se estava tudo certo por aqui. Ela desligou bem rápido e não deu tempo de falar de você, Holly, desculpa. Mais eu anotei o número que apareceu na secretária eletrônica, você pode falar com ela!
– Obrigada Jen, mais...
– Mais, o que?
– Não quero falar com ela, Jen...
– Por que não?
– Prefiro esperar ela voltar.
– E... por que?
– Só prefiro. – sorri torto e comecei a guardar as peças do jogo, logo ela deu de ombros e me ajudou.
Depois que almoçamos, fui pro quarto terminar de arrumar minhas coisas e pensar um pouco, dormir talvez, encontrei meu velho bicho de pelúcia rasgado e sujo jogado em baixo da cama.
Me lembro que usava ele pra bater, furar, morder... não era a ultilidade real pra um urso de pelúcia, mais meu ajudou por bastante tempo.
Me joguei na cama e dormi.
" – Gorda, psicopata, estúpida!
– Invejosa!
– Assassina!
Eram os corredores do colégio, estava tudo tão embaçado, eu não conseguia ver ou respirar direito. Eu não queria passar por aqueles corredores, eu não queria entrar mais ali.
Dessa vez era bem pior do que todas as outras.
– Anormal! Você não é bem vinda aqui!
O que era aquilo no chão? Um buraco enorme, escuro, vazio.
Meu coração."

– Holly?
Acordei em meio a lágrimas, agarrada na colcha da cama e com o rosto arranhado.
– O que aconteceu? Está... chorando
– O que?
Me levantei e passei a mão por debaixo dos olhos, estava mesmo chorando... e sangrando. Fui até o banheiro lavar o rosto.
Ardia, somente com água.
Cortei minhas unhas, como faziam no hospital sempre que encontravam alguma que pudesse ferir.
Ouvi minha irmã quase derrubar a porta do banheiro, perguntando o que tinha acontecido.
Sua fraca! – pensei sozinha – Por que viver, não é? Deve ser isso que eu penso, mais evito pensar ao mesmo tempo. Não me curei, não voltei a vida de antes, eu nunca voltaria a ser a garota que sorria e que chorava e sangrava a noite no canto escuro do quarto.
– Holly! Holly! Holly! Por favor, abre isso, me diz o que houve! Holly!
Limpei as lágrimas que desceram sozinhas, e abri a porta como se nada tivesse acontecido.
– Holly, o que foi?
– Nada, Jen.
– É claro que foi alguma coisa!
– Não foi nada Jennifer!
Ela virou as costas e saiu andando, batendo o pé. E eu – boba – fui atrás.
– Jen, espera aí, eu não... Jen!
Tarde de mais, a porta já estava no meu nariz.